
lançando estocadas nos fantasmas em mantos vermelhos que
caíam diante de si, Jory Cassei enterrou os calcanhares no
cavalo e saiu em disparada. Um casco ferrado com aço pegou
um guarda Lannister na cara com um cruncb repugnante.
Um segundo homem afastou-se cambaleando, e por um
instante Jory esteve livre. Wyl praguejou quando o puxaram
de cima do cavalo moribundo, com espadas golpeando entre a
chuva. Ned galopou para ele, fazendo cair sua espada sobre o
elmo de Tregar. A sacudidela do impacto o fez ranger os
dentes. Tregar caiu de joelhos, com o leão do capacete fendido
ao meio e o sangue escorrendo-lhe pelo rosto. Heward
golpeava as mãos que tinham agarrado o freio de seu cavalo
quando uma lança o acertou na barriga. De repente, Jory
estava de novo entre eles, com uma chuva vermelha caindo de
sua espada.
- Não! - gritou Ned. - Jory, afaste-se! - o cavalo de Ned
escorregou debaixo dele e estatelou-se na lama. Houve um
momento de uma dor cegante e um sabor de sangue na boca.
Ned os viu cortar as pernas do cavalo de Jory e arrastado
para o chão, as espadas subindo e descendo quando o
cercaram. Quando o cavalo de Ned voltou a se pôr em pé, o
Senhor Stark tentou se levantar, mas voltou a cair, sufocado
em seu grito. Viu o osso quebrado que espreitava da barriga
de sua perna. Foi a última coisa que viu por algum tempo. A
chuva caía, e caía, e caía.
Quando voltou a abrir os olhos, Lorde Eddard Stark estava só
com seus mortos. Seu cavalo aproximou-se, detectou o
desagradável cheiro de sangue e afastou-se a galope. Ned
começou a arrastar-se pela lama, rangendo os dentes com a
agonia que sentia na perna. Pareceu demorar anos. Rostos
observavam de janelas iluminadas por velas, e então começou
a aparecer gente de vielas e de portas, mas ninguém fez um
gesto para ajudar.
Mindinho e a Patrulha da Cidade encontraram-no ali, na rua,
embalando nos braços o corpo de Jory Cassei.
Os homens de manto dourado tiraram de algum lugar uma
maca, mas a viagem de volta ao castelo foi uma névoa de
agonia, e Ned perdeu os sentidos mais de uma vez. Lembrava-
se de ver a Fortaleza Vermelha erguer-se à sua frente à
primeira luz cinzenta da alvorada. A chuva escurecera a
pedra cor-de-rosa claro das maciças muralhas, deixando-as da
cor do sangue.
Logo a seguir era o Grande Meistre Pycelle quem se erguia à
sua frente, segurando uma taça e sussurrando:
- Beba, senhor. Aqui. O leite da papoula, para suas dores -
lembrava-se de engolir e de Pycelle dizer a alguém para
aquecer o vinho até ferver e lhe arranjar seda limpa, e foi a
última coisa que ouviu.

Daenerys

O Portão dos Cavalos de Vaes Dothrak era composto por dois
gigantescos garanhões de bronze, empinados, cujos cascos
encontravam-se trinta metros acima da estrada, formando
um arco pontiagudo.
Dany não saberia explicar por que necessitava a cidade de
portão se não tinha muralhas... tampouco edifícios que ela
conseguisse ver. Mas ali estava, imenso e belo, com os grandes
cavalos enquadrando a distante montanha púrpura atrás
deles. Os garanhões de bronze atiravam longas sombras sobre
a grama ondulante quando Khal Drogo fez o khalasar passar
sob seus cascos e avançar ao longo do caminho dos deuses,
ladeado pelos seus companheiros de sangue.
Dany seguia-os montada em sua prata, escoltada por Sor
Jorah Mormont e o irmão Viserys, de novo a cavalo. Depois
do dia em que o abandonara, naquele mar de plantas, para
que regressasse a pé ao khalasar, os dothrakis tinham passado
a chamá-lo, entre risos, Khal Rhae Mhar, o Rei dos Pés
Feridos. Khal Drogo oferecera-lhe um lugar numa carroça no
dia seguinte, e Viserys aceitara. Na sua teimosa ignorância,
nem compreendera que zombavam dele: as carroças
destinavam-se a eunucos, aleijados, mulheres prestes a dar à
luz, os muito jovens e os muito velhos. Assim, ganhou mais
um nome: Khal Rhaggat, o Rei Carroça. O irmão de Dany
pensara que o gesto era a maneira de o khal se desculpar pelo
mal que a irmã lhe fizera.. Ela pedira a Sor Jorah que não lhe
contasse a verdade, para que não se sentisse envergonhado, O
cavaleiro respondeu que um pouco de vergonha não faria mal
nenhum ao rei..., mas acabou fazendo o que ela pediu. Foram
necessárias muitas súplicas, e todos os truques de cama que
Doreah lhe ensinara, para que Dany conseguisse fazer com
que Drogo aceitasse que Viserys voltasse a se juntar à cabeça
da coluna,
- Onde está a cidade? - perguntou ao passarem sob o arco de
bronze.
Não havia edifícios à vista, nem pessoas, via-se apenas o
campo e a estrada, delimitada por fileiras de antigos
monumentos provenientes de todas as terras que os dothrakis
tinham saqueado ao longo dos séculos.
- Lá à frente - respondeu Sor Jorah. - No sopé da montanha.
Para lá do portão dos cavalos, deuses pilhados e heróis
roubados erguiam-se de ambos os lados da coluna. Divindades
esquecidas de cidades mortas ameaçavam o céu com seus
relâmpagos quebrados quando Dany passou com sua prata a
seus pés. Reis de pedra olhavam-na do alto de seus tronos,
com os rostos lascados e manchados,